e deixa-se quebrar nas rochas....
Estrondoso o vento, seu Zumbido,
que desgarra apegos,
limbos escorregadios, envolventes, macios,
que ocultam a rigidez da soberba...
Paciente o tempo,
que aguarda a delicadeza
na fina areia da praia...

- Bom dia, está na hora de acordar! Hoje estou atrasada, até a noite!
Levanto a cabeça e vejo minha irmã saindo pela porta do quarto, correndo como sempre.
Minha vontade é de continuar na cama, a sonhar com os pássaros e com a natureza.
- Como era mesmo o sonho? Não posso esquecê-lo.
Olho o espelho, e momentos do sonho se mesclam a realidade.
Fecho os olhos para lembrar o sonho com detalhes e de repente estou andando muito ligeiro, piso num buraco e viro o pé. A dor me enfurece.
- Não devia ter saído de casa!
Dia chuvoso, cinzento. Me sinto tão nublada quanto o dia....
Continuo a caminhar mais lentamente.
- Hoje, não comecei o dia com o pé direito!
Por que digo isto? Pé esquerdo, pé do azar?
Esquerdo... Negativo... Obscuro... Profano... Feminino...
Por que a tendência de nossa cultura em privilegiar apenas um aspecto da natureza, como se o outro, não fizesse parte do todo? Tudo torna-se tão fragmentado em nossas mentes.
Continuo andando atenta a cada passo, ao mesmo tempo que medito.
Enquanto o pé direito prossegue tateando as aparências da realidade, o esquerdo parece possuir raízes, que captam das profundezas da terra a sua força para compreender o que há de mais secreto no caminhar.
Agora começo a correr, um correr diferente como se meus pés possuíssem asas. Meu corpo desliza rente ao solo. Na dança, a expressão da leveza do viver em harmonia.
Reparo ao redor e me vejo numa floresta densa. Prossigo na solidão do guerreiro, no passo do poder. Poder de auto comando, de auto conhecimento.
Os passos mais lentos... O espírito a meditar...
Este caminho se desenha no aqui-agora. Nele não há retorno. A consciência em cada passo deixa, na encruzilhada espaço-tempo, a sua marca.
O tapete de galhos e folhas secas murmura sob o peso de meu corpo e anuncia a passagem aos pássaros, que voam ao longe... O espírito transforma pensamentos em sementes aladas. Um dia, encontrarão um solo fértil para germinarem.
A atenção se volta ao pé esquerdo e me faz sentir a sua força. Seu comando segue o compasso do coração, motor da vida, sede do Amor-Sabedoria. Mesmo com o dia nublado, vislumbro cores ao captar o invisível.
Acordo de repente, com a imagem de um lindo campo florido, ainda refletido em minha tela mental. No coração, a compreensão de ter pela frente um dia virtuoso a ser trilhado passo a passo.